Wangari Mathaai

A ambientalista queniana ganhadora do Prêmio Nobel

Wangari Mathaai

Existe uma montanha no continente africano com seus cumes cobertos de neve, chamada Kirinyaga na língua kikamba, uma língua banta, que significa “a montanha com brilho”. Essa montanha dá nome a um país: Quênia.

O Quênia, como o resto da África, foi colonizado pelos europeus, que julgaram de bom tom se reunir no final do século XIX numa conferência para dividir entre si um continente que já era habitado desde tempos imemoriais e para saquear seus recursos e riquezas.

Mas durante décadas os quenianos lutaram contra a colonização do país pelos britânicos. Enquanto isso acontecia, nasceu uma menina destinada a brilhar mais que a montanha: Wangari Mathaai.

Naquela época não havia muito espaço para a educação de meninas. Ainda assim, Wangari concluiu a educação básica e depois recebeu uma bolsa de estudos para cursar a universidade nos Estados Unidos. Obteve um bacharelado e mestrado em biologia e doutorado em anatomia. Foi a primeira queniana a se tornar doutora, e também a primeira mulher a ter um cargo de professora na Universidade de Nairobi, capital do Quênia.

Mas Wangari queria mais: queria transformar a vida das mulheres e ao mesmo tempo reverter a desertificação que avançava no Quênia. A destruição das florestas afetava diretamente a situação das mulheres rurais quenianas, ao causar escassez de lenha para cozinhar, insegurança alimentar e falta de água limpa.

Wangari percebeu que a resposta à emergência climática estava justamente nas mãos das quenianas. Com o Conselho Nacional de Mulheres, da qual foi presidente, Wangari desenvolveu um trabalho de base comunitária que capacitava as mulheres a produzir e plantar árvores. Dessa forma, elas geravam renda e combatiam a erosão do solo, quebrando o ciclo de pobreza.

Mulheres quenianas produzindo mudas de árvores
 
Essa iniciativa, conhecida como Cinturão Verde Africano e mais tarde expandida para outros países africanos, plantou mais de 30 milhões de árvores no Quênia.

De 1978 a 2004 o Quênia foi governado pelo presidente Daniel Arap Moi. Como em toda ditadura, houve perseguição a opositores, assassinatos e tortura, corrupção e distribuição ilegal de terras públicas a aliados.

E como ditadores são megalomaníacos, Daniel Moi decidiu transformar o Parque Uhuru, único parque público de Nairobi, em um empreendimento imobiliário nababesco, com um edifício de 60 andares e uma estátua gigante dele mesmo na frente.

Wangari Mathaai liderou a oposição pública ao projeto, e por isso foi ameaçada de prisão e insultada publicamente pelo presidente Moi. Com a visibilidade internacional dos protestos, os financiadores britânicos retiraram apoio e Moi foi obrigado a desistir do projeto.

Acontece que, nesse ponto, o protesto contra a devastação do Parque Uhuru já havia se transformado em luta pela democracia no Quênia. Watari e um grupo de mães de prisioneiros políticos iniciaram uma greve de fome no Parque, exigindo a libertação de seus filhos. Ali nasceu o “Freedom Corner”, ou o Canto da Liberdade.

Mães quenianas protestando pela libertação de presos políticos

A polícia reagiu violentamente, ferindo muitas mulheres, entre elas Watari. Foi quando as mulheres mais velhas despiram-se como forma de protesto, já que os quenianos acreditam que podem ser amaldiçoados caso vejam a nudez de uma mãe. A atitude desafiadora dessas mulheres gerou um caos tão grande que os policiais foram obrigados a recuar.

Graças à atitude corajosa do Reverendo Peter Njenga, as manifestantes foram então acolhidas na Catedral de Todos os Santos, em frente ao Parque Uhuru, e escondidas em um porão para escapar à perseguição policial. Os policiais cercaram o prédio, mas o Arcebispo da Igreja Anglicana, Manasses Kuria, decretou oficialmente a catedral como um santuário inviolável para as mães dos presos políticos.

Assim, as mulheres permaneceram na Catedral durante 11 meses, e o local tornou-se o centro do debate democrático no país, reunindo milhares de pessoas para discutir democracia, liberdade de expressão e direitos civis.

Finalmente, em janeiro de 1993, os 52 presos políticos foram libertados. O presidente Moi estava totalmente desmoralizado e os protestos abriram caminhos que mais tarde levaram à democratização do Quênia.

Nas primeiras eleições livres do país, em 2002, Wangari foi eleita membro do Parlamento e posteriormente nomeada Ministra do Meio Ambiente, Recursos Naturais e Vida Selvagem.

Em 2004 Wangari Mathaai ganhou o Prêmio Nobel da Paz, a primeira mulher africana a receber a honraria, em reconhecimento de sua luta por empoderamento feminino, justiça climática, democracia e direitos humanos no Quênia.
 
Wangari Mathaai ao receber o Prêmio Nobel da Paz

Ao aceitar o prêmio, Wangari dedicou-o às mulheres e meninas. Em seu discurso, disse: “É chegado o tempo de reconhecer que o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz são uma ideia indivisível."

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, reverencio essa mulher espetacular e deixo o seguinte trecho de seu discurso na entrega do prêmio como reflexão:

“Somos chamados a ajudar a Terra a curar suas feridas e, no processo, curar as nossas próprias – de fato, abraçar toda a criação em sua diversidade, beleza e maravilha. Isso exige que repensemos o que significa desenvolvimento e sucesso. O verdadeiro sucesso deve ser medido pela vitalidade dos nossos ecossistemas e pelo bem-estar dos mais vulneráveis.”

Wangari Mathaai faleceu em Nairóbi em 25 de setembro de 2011 aos 71 anos.



Comentários